Foto: Secom

Governo de coalizão de Gaguim: Estado ainda desenha seu novo mapa político
Cleber Toledo
Da Redação
O Tocantins comemora 21 anos de criação nesta segunda-feira, 5, em meio a um clima de convulsão política. O governador reeleito em 2006, Marcelo Miranda (PMDB), está cassado; seu substituto, Carlos Henrique Gaguim (PMDB), tenta se efetivar no poder num processo de eleição indireta marcado por crises partidárias; e o mapa político do Estado está sendo redesenhado pela terceira vez em apenas cinco anos - a primeira foi no resultado das eleições municipais de 2004, depois veio o rompimento da União do Tocantins, em 2005, e agora com a ascensão de Gaguim, em setembro de 2009.
A cassação de Marcelo Miranda representa uma ruptura na frágil e relativa hegemonia que ele construiu com sua reeleição em 2006. Agora, as forças políticas começam a se reorganizar e alguns grupos podem surgir, ampliando a abertura democrática intensificada nas eleições municipais de 2004.
Até as eleições de 2004, apenas uma força imperava na política tocantinense: a União do Tocantins. O grupo fundado pelo ex-governador Siqueira Campos (PSDB), ainda no início do Estado, no final da década de 1990, chegou a ter, em seu apogeu, mais de uma dezena de partidos coligados a ele. Agora, nessa reconstrução política do Tocantins, a UT, ainda sob o comando de Siqueira, luta mesmo é para sobreviver aos novos tempos.
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| Marcelo e Siqueira: de aliados a inimigos |
As primeiras feridas
A eleição do utista Marcelo Miranda, em 2002, para o governo do Tocantins, abriu a primeira rachadura na hegemonia até então consolidada pela UT. O grupo de Siqueira chegou a contar com mais de 130 das 139 prefeituras do Estado, governou o Tocantins por dez anos, e, até a ascensão de Marcelo, tudo indicava que o grupo não deixaria o poder tão cedo.
Contudo, Marcelo e seu pai, Brito Miranda, cérebro político do novo governo, tinham origens partidárias diametralmente opostas às que caracterizavam grande parte dos políticos utistas. Os dois iniciaram a vida pública no PMDB, com antepassados enraizados no PSD. Enquanto os utistas, em boa parte, vinham da escola da Aliança Renovadora Nacional, a Arena.
As primeiras feridas na musculatura da UT surgiram já nos palanques de 2002, quando, conforme acusam os aliados mirandistas, o então senador Eduardo Siqueira Campos, hoje no PSDB, anunciava, em alto e bom som, que em 2006 o então candidato Marcelo Miranda lhe entregaria o cargo de governador. Numa reunião com lideranças, em Dianópolis, há três anos, em plena campanha pela reeleição de seu filho, Brito disse que Eduardo quis fazer de Marcelo "uma marionete, um robô" e tutelá-lo. "Marcelo teve a coragem e a determinação de romper com esse grupo radicalmente, não aceitando mais interferência do ex-governador (Siqueira Campos), que ligava várias vezes para os secretários, querendo dar ordens", contou Brito nesse encontro.
Já Siqueira defende que foi traído por Brito Miranda, o que o levou a se afastar do grupo do novo governador e de seu pai. "Como que é que eu poderia manter relacionamento com uma pessoa que saía daqui e até para o presidente da República falou mal de mim?", questionou Siqueira, numa entrevista ao CT durante as campanhas eleitorais de 2006. O ex-governador, nessa entrevista, ainda disparou mais contra o ex-secretário estadual de Infra-Estrutura, que tinha sido o homem de confiança também de seu governo: "[Brito Miranda] Falando mal para todo mundo (dele, Siqueira), criando problema com todo mundo. Falso de manhã à noite... Chora... Chorava, continua a chorar, enganando as pessoas, que ele é inocente, que é bonzinho!"
De toda forma, na
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| Nilmar: campanha em segundo plano diante da briga dos caciques utistas |
posse do novo governador, Marcelo Miranda, em 1° de janeiro de 2003, a relação já tinha "azedado". As rusgas se tornaram crescentes entre a cúpula dividida em mirandistas e siqueiristas.
A disputa interna fez vítimas nas eleições municipais de 2004 por todo o Estado. Uma delas foi a então prefeita de Palmas, Nilmar Ruiz, hoje no PR, na época candidata à reeleição contra o insistente petista Raul Filho, que vinha de duas derrotas seguidas. A campanha de Nilmar ficou em segundo plano diante das brigas dos caciques e o resultado foi a vitória avassaladora de Raul.
Não só Raul, mas toda a oposição venceu e houve a primeira grande mudança no mapa político do Estado, com visível enfranquecimento da UT. A oposição cresceu 162,5% em número de prefeitos, saltando de míseros 16 para 42; os utistas perderam 21,1% dos seus prefeitos, caindo 123 para 97. No novo mapa político do Estado desenhado em 2004 ficava claro que a UT não era mais tão hegemônica assim. E o pior estava por vir.
Rompimento irreversível
As crescentes divergências internas e o afastamento dos líderes somados ao péssimo resultado eleitoral da UT em 2004 não poderiam resultar em outra coisa: Marcelo Miranda deixou o PSDB em abril de 2005 e se filiou ao PMDB no dia 10 de junho.
Essa mudança atingiu em cheio as composições da bancada federal, Assembleia Legislativa, prefeituras e câmaras municipais. Um novo mapa político era desenhado, menos de um ano depois do resultado eleitoral de 2004. Logo, Marcelo, com o poder da caneta de governador, conseguiu colocar ao seu lado um exército de mais de 100 dos 139 prefeitos, mais de 900 vereadores e um incontável número de ex-deputados, ex-prefeitos e ex-vereadores por todo o Estado.
O nome do então desconhecido Marcelo Miranda foi disseminado pelo Estado através um pesado investimento em publicidade - valeu até mesmo bancar projetos de expansão de emissora de TV privada - e do programa
Governo Mais Perto de Você, que atendeu, nas edições de 2005 e 2006, mais de 120 municípios em 24 edições e com a incrível marca de 2 milhões de atendimentos.
À frente desse rolo compressor, os Miranda conseguiram, com uma poderosa máquina, vencer o mito, o ex-governador Siqueira Campos.
Corrupção, cassação e caos
A máquina era poderosa, contudo, também se mostrou pesada, e deixou rastro. O resultado foi o Recurso Contra Expedição de Diploma (RCED 698) movido pela União do Tocantins contra o governador reeleito e seu vice, Paulo Sidnei (PPS). Para piorar a situação, o segundo mandato de Marcelo foi marcado por tentativa de amordaçar a imprensa e órgãos, como o Tribunal de Contas do Estado (TCE), e por graves denúncias de corrupção, desvio de recursos públicos e benefícios a empresas familiares. Desgastado, Marcelo Miranda foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na histórica madrugada do dia 26 de junho de 2009.
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| Diante de lideranças nacionais, Marcelo assina ficha no PMDB e consolida primeiro grande rompimento utista |
O TSE afastou o governador cassado e seu vice, Paulo Sidnei, no dia 9 de setembro e, então, tomou posse o presidente da Assembleia, Carlos Henrique Gaguim, sob um total caos administrativo: servidores querendo receber reajuste de 25% concedido por Marcelo em dezembro de 2007 e, desastrosamente, retirado dias depois, sem mais, nem menos; os policiais militares também exigem o pagamento da indenização que conquistaram na Justiça; muitas dívidas e um governo que sequer consegue comprar por não ter estabilidade política.
Para complicar, setores históricos do partido do governador interino, o PMDB, ameaçam tentar tirar a indicação dele como candidato da legenda na eleição indireta, marcada para quinta-feira, 8, tumultando ainda mais uma situação que já está para lá de conturbada.
É sob esse caos político-administrativo que o Tocantins chega aos seus 21 anos de criação, nascido com a promulgação da Constituição Cidadã, em 5 de outubro de 1988.
O Estado hoje está desenhando seu terceiro mapa político em cinco anos, num processo de aprofundamento de sua democratização tardia. Mas esta nova versão do mapa ainda está no rascunho.
Perfis dos grupos e seus principais líderes
Dessa convulsão toda, alguns contornos já parecem mais claros:
1. Um grupo de grande força política já se forma unindo o governador interino Carlos Gaguim ao senador João Ribeiro (PR), a mais expressiva liderança que sobreviveu aos cacos da UT - que hoje se resume a um único partido, o PSDB, que talvez poderá contar com o indeciso PP, com um pé lá, outro cá. O ex-governador Siqueira Campos viu duas terríveis divisões da UT - talvez quase mortais -, em 2005, com a saída de Marcelo, e agora em 2009, com a ascensão de Gaguim. Se a primeira fragilizou o grupo, essa última o colocou em situação ainda mais crítica.
João Ribeiro construiu sua trajetória, sobretudo a partir de 2006, como membro do conselho político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alavancando milhões de reais de recursos federais para os municípios - o que foi fundamental para o Tocantins, uma vez que o Estado viveu em quase completa estagnação desde o início do segundo mandato de Marcelo - e também protegendo os prefeitos utistas dos ataques marcelistas.
Nas eleições municipais de 2008, o senador conseguiu unir em torno de si as oposições ao governo Marcelo Miranda (UT e vários candidatos do PT), garantiu apoio político, estrutural e até financeiro a esse grupo de candidatos e se tornou o maior vencedor do processo eleitoral. Isso é confirmado pelos resultados das urnas: a oposição aos Miranda ficou no comando de 10 dos 16 maiores colégios eleitorais do Estado, onde estão concentrados 50,95% dos eleitores tocantinenses.
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| Senador João Ribeiro e Gaguim comemoram a vitória de Valtênis, na ATM |
Um dos mais próximos aliados de Marcelo, Gaguim começou a se afastar do então governador na histórica eleição para a presidência da Assembleia, em fevereiro de 2007. O governo, apoiando o deputado César Halum, hoje no PPS, tentou derrubar sua candidatura. Gaguim venceu com o apoio decisivo dos deputados utistas. A partir dali se afastou cada vez mais dos Miranda. Começou a se aproximar de João Ribeiro principalmente depois que o senador, que tinha declarado a independência do PR, no final de 2006, assumiu o comando das oposições no Estado, em agosto de 2007.
Numa manobra espetacular, Gaguim conseguiu antecipar a eleição da Mesa Diretora da Assembleia para junho de 2008 - ocorreria em fevereiro de 2009 -, ou seja, para antes das eleições municipais. Foi justamente essa manobra que lhe deu condições de hoje assumir o governo do Tocantins. Nas campanhas municipais do ano passado, apoiou candidatos que não eram aqueles que tinham a bênção do Palácio Araguaia.
Na eleição da Associação Tocantinense dos Municípios (ATM), no final de janeiro deste ano, Gaguim e João Ribeiro impuseram uma das maiores derrotas já sofridas pelo governo Marcelo Miranda ao garantirem a vitória do prefeito de Santa Fé do Araguaia, Valtênis Lino.
2. Esse grupo deve arregimentar uma força parecida com a que conseguiu Marcelo Miranda em 2006, agregando senadores, deputados, prefeitos, vereadores e lideranças em geral.
3. Porém, outros grupos prometem surgir. Se o Tocantins tinha um grupo hegemônico até 2004/2005 e depois passou a ter dois grupos com condições de competir em 2005/2006, a partir de agora poderá ter três ou mais.
4. Um deles pode ser comandado pelo prefeito de Palmas, Raul Filho, que, depois de amargar total desgaste perante a opinião pública, renasceu nas eleições de 2008 como uma das mais expressivas lideranças políticas do Tocantins.
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| Marcelo Miranda mostra o diploma de governador, cassado em junho pelo TSE |
5. Uma força que sofreu baques terríveis nas últimas semanas - até agora, a maior vítima dessa convulsão política -, e que terá se recuperar e reconquistar espaço, é a senadora Kátia Abreu. Seu partido, o DEM, perdeu em uma semana uma deputada federal, três deputados estaduais, três suplentes de deputados estaduais e pode ainda sofrer grandes baixas nas prefeituras e câmaras. Uma das fortes aliadas de Marcelo Miranda em 2006, Kátia hoje está afastada de boa parte do grupo que estava ao seu lado há três anos. A cisão dela com o atual governo se deu depois de romper com o governador Gaguim e com o senador João Ribeiro.
6. Outra força que não pode ser desprezada é o ex-governador Siqueira Campos. Se conseguiu tirar do poder seus dois maiores inimigos, Brito e Marcelo Miranda, Siqueira viu frustrar seus planos de assumir o comando do Palácio Araguaia. Ainda, da mesma forma que resistiu ao mirandismo, o ex-governador continua resistindo aos novos ventos que sopram a favor de Gaguim e João Ribeiro, seu já ex-aliado. Siqueira tem se colocado contra a adesão de seus líderes ao governo de coalizão.
Mas alguns importantes utistas remanescentes do cisma de 2005 foram para Gaguim, como os deputados federal Eduardo Gomes (PSDB) e estaduais Marcello Lelis (PV) e Stálin Bucar (PR). Porém, Siqueira já disse que esses líderes não são mais seus aliados. João Ribeiro já vinha se afastando de Siqueira desde as eleições de 2006, mas chegou a estar ao lado comandante utista nas eleições municipais do ano passado. O afastamento entre eles hoje já é bem significativo.
Dessas forças, algumas poderão se unir e, nas eleições de 2010, o Estado, então, assistirá apenas duas candidaturas competitivas ao governo do Tocantins, como em pleitos anteriores. Contudo, desta vez essas duas forças manterão internamente uma relação mais autônoma e democrática (não de subserviência como no passado), porque serão formadas por correntes independentes que se uniram por conveniência meramente eleitoral, de forma deliberada, não mais por imposição.
Ou então o Tocantins poderá ter, pela primeira vez, três candidaturas a governador, efetivamente, competitivas, como Palmas viu em 2008, na disputa entre Raul, Marcello Lelis e Nilmar.
Daí começam a se traçar várias possíveis combinações:
- Já é tida como certa uma candidatura surgindo da dupla João Ribeiro/Gaguim;
- Outra possibilidade é que essa dupla tenha ainda a adesão do prefeito Raul Filho;
- Mais uma combinação: Siqueria e Kátia juntos, afinal, eles têm partidos que são aliados nacionalmente e ambos têm características políticas semelhantes;
- Os grupos de Kátia e Siqueira poderiam competir separadamente em 2010.
Essas são algumas das principais possibilidades - e só isso: possibilidades - que poderão surgir desse mapa político que está sendo rascunhado neste momento, cujos contornos exatos só serão vislumbrados nos próximos meses. Até abril o quadro estará concluído e emoldurado.