07/06/11 10h04 07/06/11 10h04

Quem tem ouvidos, não ouça

Peterson Oliveira Costa
É presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil da 706 Sul, em Palmas
costapeterson@bol.com.br  
Antes de iniciar minhas abordagens, apresento trecho da reportagem publicada na Folha.com, em 03/06/2011, de autoria do repórter Ricardo Feltrin, cujo título é: NA TV, PASTOR INOVA E CRIA O DÍZIMO NO DÉBITO AUTOMÁTICO: “Não é por falta de criatividade que as igrejas deixarão de arrecadar dinheiro dos seus fiéis. Maior exemplo de inovação é o missionário R.R.Soares, líder da Igreja Internacional da Graça, que acaba de lançar uma nova modalidade de coleta de dízimo, por meio de débito automático em conta-corrente. Segundo Soares divulgou em seu programa na Band, o membro da igreja poderá fazer suas doações mensalmente de forma mais prática. Para isso o fiel deve preencher um cadastro nos sites da igreja e passar seus dados bancários. É o doador, afirma Soares, quem decide quanto quer doar. Quem se cadastrar, diz ele, ganha ‘um brinde de Jesus’, sem dizer o que é. O missionário garante ainda que, se por acaso o doador não tiver saldo num determinado mês para dar o dízimo automático, ele não será debitado e ‘o fiel não será incluído no SPC ou no Serasa’. A doação mensal voltará a ser debitada no mês seguinte, sem acumular a que não foi paga. Para criar o dízimo em conta corrente, a Igreja Internacional da Graça firmou parceria com Itaú, Banco do Brasil e Bradesco”.

O problema é que os fiéis estão amando cada vez mais a “igreja” e deixando de amar o Evangelho. E quando verdadeiramente se ama o Evangelho, entende-se que nem só de pão (de dinheiro, de bens etc) viverá o homem. Que o homem (verdadeiramente de Deus) vive de suas misericórdias que são renovadas a cada dia.

Quando se ama apenas a “igreja” (e se esquece do Evangelho), a possibilidade de cair na paranóia espiritual que se propaga é muito grande. Por isso, dão crédito a tantas asneiras teológicas que têm por aí: marcam encontro com Deus (e muitos acreditam), prometem curas (e muitos acreditam), prometem riquezas neste mundo (e muitos se esquecem que o céu não é aqui).

O modelo do cristão é Jesus.

Alguém poderia imaginar Jesus nos tempos hodiernos pregando o estelionato espiritual que se vivencia atualmente?

Não se engane, dízimo é culto a Deus. Deve ser entregue com alegria e liberalidade. Ninguém – e assumo toda a responsabilidade espiritual pelo que vou dizer – deve dizimar por medo, interesse ou esperando algum “brinde de Jesus”. Seu dízimo simboliza entrega, alegria, descanso, satisfação e contentamento em Deus, que nos sustenta dia a dia.

Assim, cônscio da sobriedade do Evangelho de Cristo (pois suas verdades são inamovíveis) e totalmente descrente das pseudopregações modernas, fica decretado:

1) Que o céu não é aqui;

2) Que o pecado distancia o homem de Deus;

3) Que nossa riqueza não é material;
4) Que fazer barganhas com Deus é pecado;

5) Que o Evangelho liberta (e apenas ele);

6) Que a liberdade do Evangelho não simboliza loucura, fanatismo ou apego desregrado às lideranças eclesiásticas (Jesus mesmo combateu todas essas mazelas);

7) Que não existe dia determinado para se libertar de nada. A libertação verdadeira vem da pregação da palavra. Assim, onde houver dois ou três em nome do Senhor, lá Ele estará. Onde o Evangelho de Cristo for lido e pregado (casa, trabalho, rua, bairro, cidade, igreja, escola) haverá libertação, em qualquer horário do dia ou da noite;

8) Que dízimo é culto a Deus;

9) Que ninguém tem autoridade para marcar encontros em nome de Deus;

10) Que Deus cura, apenas Ele;

11) Que a cura que importa é a espiritual e não a física;

12) Que um dia todos morrerão, conquanto nada aqui é eterno;

13) Que Deus está preocupado com sua vida e não com o seu bolso;

14) Que você pode adoecer como qualquer ser humano (e você é um ser humano) e nem por isso estará possuído por demônios;

15) Que ninguém está imune a tragédias nesta vida (ninguém mesmo);

16) Que a morte só é morte para quem não vive em Cristo;

17) Que o Evangelho apresenta um Jesus libertador e não um “deus” obcecado por dinheiro;

18) Que você pode ter pouco recurso material, entretanto o seu coração pode transbordar do amor de Deus;

19) Que suas finanças podem ser incomensuráveis, porém a sua alma pode estar totalmente destruída;

20) Que no fim pesará o seu coração e a sua consciência em Cristo e não o tamanho de sua conta bancária;

21) Que se sua proximidade com Deus é para receber algum benefício e não para prestar-lhe culto devido, saiba que sua fé é enganosa.

Se você desejar uma mente sóbria e ter uma vida espiritualmente salutar, não dê ouvidos a tudo o que vem sendo pregado por aí. Muito cuidado com as profetadas (que muitos dão nome de profecia) e com as revelações (que mais confundem do que esclarecem). Uma vida em Deus, acima de tudo, é uma vida transformada pelo amor. Em Cristo, há certeza e não dúvida; há celebração de vida mesmo quando surge a morte; há paz e não guerra; há convicção e não medo; há culto e não barganha; há entrega e não interesse; há alegria mesmo diante da escassez; há temor e tremor e não terror; há pregação e não enrolação; há cruz (e não lencinho, toalhas, sal grosso, água em cima da televisão para ser abençoada e outras coisas mais).

Sola fide (somente a fé); sola scriptura (somente a Escritura); solus Christus (somente Cristo); sola gratia (somente a graça); soli Deo gloria (glória somente a Deus).
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