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Artigo - E Lula não transferiu votos

15/10/08 15h54

Jaboatão dos Guararapes é um município de mais de 665 mil habitantes. É contíguo ao Recife e tem uma renda média muito baixa. Pernambuco, diga-se de passagem, é um dos Estados onde o apoio ao presidente é mais alto. Além do Bolsa Família, da marca social, do desempenho da economia, do acesso ao crédito, os pernambucanos dizem que Lula é de lá - afinal, ele é natural de Garanhuns. 

    Alberto Carlos Almeida
    É autor de "A Cabeça do Brasileiro"

Em qualquer município do Estado a avaliação de Lula é fenomenal, talvez a mais alta do Brasil. Isso também vale para Jaboatão. Além disso, na vizinha Recife o prefeito do PT fez um bom trabalho, foi reeleito em 2004 e agora elegeu o sucessor. A aprovação dele é elevada e sua fama foi parar em Jaboatão. Por analogia, muitos poderiam achar que com Lula lá e João Paulo aqui, elegendo-se um prefeito petista, quem sabe, Jaboatão poderia melhorar muito. 

Além de tudo isso, o prefeito está pessimamente avaliado. Todos os ingredientes favoreciam André Campos, o candidato do PT, que, aliás, iniciou a corrida em primeiro lugar. Lula gravou depoimentos a favor de Campos e a voz do presidente esteve maciçamente presente nos carros de som espalhados pela cidade. 

Nada disso fez Campos ganhar. O prefeito eleito no segundo maior município do Estado natal de Lula é do PSDB. Elias Gomes foi prefeito do Cabo de Santo Agostinho, também uma cidade grande da região metropolitana do Recife. Fez uma campanha propositiva com ênfase na construção do hospital municipal de Jaboatão e da pavimentação de mil ruas. Ele deu credibilidade às promessas mostrando o que tinha feito quando esteve à frente da prefeitura do Cabo. Elias venceu com 53% dos votos válidos. 

No Sudeste, Alessandro Molon, do PT, com muito tempo de televisão, não passou de 4% dos votos válidos. Fátima Bezerra foi derrotada por Micarla de Souza em Natal, depois de divulgar muito em sua propaganda política o apoio de Lula. O presidente participou de um comício no qual pedia com muita ênfase votos para Fátima. 

Em São Bernardo do Campo, berço do sindicalismo que alçou Lula à condição de líder político nacional de destaque, o candidato do PT, Luiz Marinho, teve, afirma-se, uma das mais caras campanhas eleitorais quando se divide o gasto pelo número de eleitores. Lula participou de numerosos eventos em São Bernardo, comícios, carreatas, passeatas, etc. A expectativa era de que Marinho ganhasse no primeiro turno. Em São Bernardo haverá segundo turno e o PT disputará com o PSDB o direito de governar a principal cidade do ABC paulista. Luiz Marinho ficou com 48% dos votos válidos; Orlando Morando, com 37%. A disputa está em aberto. 

Aliás, o Estado de São Paulo deu mais prefeitos aos Democratas do que ao PT. Ao que tudo indica, houve uma inversão: enquanto os Democratas perderam terreno no Nordeste e o PT ganhou, em São Paulo o PT parece que perdeu terreno para os Democratas. Não se pode afirmar que em São Paulo a situação do governo federal seja ruim. A avaliação do governo Lula melhorou muito nos últimos tempos. O comércio varejista passou a vender mais, a indústria a produzir mais, enfim, o crédito também aqueceu a economia do Estado mais rico do país. Não foi só no Nordeste que isso ocorreu. 

Há todo tipo de exemplo para todos os gostos: cidades grandes do Nordeste, capitais do Sudeste, cidades do interior do Centro-Oeste, em todos os lugares valeu a lógica de sempre: o que conta para as eleições municipais são as questões municipais. Aquele que mostrar com maior credibilidade que vai resolver os principais problemas do eleitor se tornará o favorito. Foi assim que Gilberto Kassab, ao insistir no tema da saúde, nas AMAs, nos hospitais, nas AMAs com médicos especialistas, enfim, nas diversas medidas para melhorar o atendimento de saúde em São Paulo, chegou na frente da Marta no primeiro turno. 

Quatro anos antes, o tema da saúde, foco de campanha de José Serra, que saíra havia pouco tempo do Ministério da Saúde, derrotou Marta. É uma questão local, nada tem que ver com a avaliação de Lula. O eleitor vai preferir aquele que transmitir maior credibilidade nas promessas de solução desse problema. Kassab se utiliza do que já fez e da avaliação de seu governo como fonte dessa credibilidade. 

Criou-se a expectativa de que o PT, graças a Lula, daria uma lavada. Essa expectativa estava baseada na falsa premissa de que o eleitor iria se comportar de acordo com o pedido do líder bem avaliado. 

Isso não ocorreu nem com o presidente nem com os governadores, como mostra o exemplo de Aécio Neves na capital mineira. Também quanto a isso, quanto à incapacidade de transferência de votos dos governadores, há numerosos exemplos. Mesmo um governador muito bem avaliado não tem o poder de eleger quem ele queira. O PMDB de Sérgio Cabral perdeu em Duque de Caxias para o PSDB, em Nova Iguaçu, Mesquita e Belford Roxo para o PT. Por quê? Tudo por conta de questões locais, específicas a cada um desses municípios. Nada teve que ver com o desempenho ou a aprovação do governador do Estado do Rio. 

Cada um desses exemplos se expressa nos grandes números. Diga-se de passagem, os grandes números ajudam muito a entender o que vem ocorrendo na distribuição das prefeituras no Brasil. De 1996 para 2008, os três maiores partidos conservadores vêm lançando, no agregado, menos candidatos a prefeitos. O PMDB lançou 3.010 candidatos em 1996, caiu para 2.844 em 2000 e 2.482 em 2004. Essa trajetória de queda foi interrompida só neste ano, quando o PMDB lançou mais candidatos do que na disputa anterior: 2.673. 

Isso ocorreu graças à Bahia, onde em 2004 o PMDB teve 89 candidatos e em 2008 passou para 260. Um acréscimo de 171 candidatos, por coincidência exatamente o mesmo número de candidatos a menos que o Democratas teve no Estado. 

O PSDB não interrompeu, por ora, a trajetória de queda no número de candidatos a prefeitos lançados. Em 1996, foram 2.212 e agora 1.799 candidatos tucanos. A redução dos Democratas foi a mais acentuada de todas, saiu de 2.239 candidatos em 1996 para 1.252 em 2008. O PT, ao contrário desses três partidos, vem lançando cada vez mais candidatos, com exceção de 2008, quando teve 1.633 candidatos a prefeito ante 1.947 lançados em 2004. 

Varia muito o número de candidatos a prefeito que cada um desses partidos lança. Varia pouco, porém, ou quase nada, a proporção de candidatos que são eleitos. Entre 1996 e 2008, tomando-se PMDB, PSDB e DEM, eles elegeram 44% dos candidatos a prefeito. A tabela mostra que a variação em torno da média foi muito pequena, o mínimo foi 42% e o máximo, 48%. A única exceção a essa regra de pouca variação foi o PT. A cada ano, o partido elege proporção maior de candidatos a prefeito. O que isso significa? 

Significa que no passado o PT lançava candidatos para marcar posição e hoje lança candidatos para ganhar. Ou seja, de tanto disputar eleição, o PT se tornou menos sonhador e mais realista: não é só lançar um candidato e fazer campanha que ele vencerá. Para vencer, é preciso ter chances. 

Tanto isso é verdade que em 2008 o PT lançou menos candidatos do que em 2004. Foram 1.633 candidatos agora e 1.947 há quatro anos. Nesse período, Lula foi reeleito e o PT passou de três para cinco governadores de Estado. Não foi porque ficou mais forte que lançou mais candidatos, mas sim, o partido se tornou mais forte porque se tornou mais viável e aprendeu a disputar eleições, e porque aprendeu a disputar eleições passou a ser mais realista quanto às chances de seus candidatos. Hoje o PT se aventura menos e vence mais, ao menos no que tange às eleições municipais. Também nesse aspecto o partido ficou mais conservador. 

Resultado: em 2008 o PT elegeu 33% de seus candidatos a prefeito, um aumento de 12 pontos porcentuais entre agora e 2004. Aliás, de 1996 para 2000 a taxa de sucesso dos candidatos petistas aumentou quatro pontos porcentuais; na eleição seguinte, 7 pontos; e, agora, os 12 mencionados. 

Pergunta que não quer calar: se Lula tivesse o poder mágico de eleger e transferir votos, a trajetória seria essa? Repetindo, o aumento da taxa de eleição dos candidatos petistas foi de 4, 7 e 12. Isso não parece uma trajetória que independe da força do presidente? Tudo indica que sim. Aliás, o PT ainda não conseguiu o que os outros três partidos já fazem desde 1996: eleger 45% de seus candidatos. Se o sucesso eleitoral do PT nas eleições municipais aumentar novamente, essa taxa de conversão será alcançada em 2012, com ou sem presidente popular, com ou sem Lula, com ou sem o mito da transferência de votos entre políticos de cargos diferentes. 
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* Reproduzido do jornal Valor Econômico, da edição de sexta-feira, 10.

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