A tua sobra é a minha necessidade

LUÍS GOMES, DA REDAÇÃO 24 de Jul de 2013 - 08h34, atualizado às 08h55
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Sônia Pugas: é jorrnalista tocantinense radicada na Europa, mestranda em Publicidade e Relações Públicas e estudante de mídias sociais
Nos últimos sete anos mudei de casa e país pelo menos 13 vezes - motivos diversos. Isso não me incomoda, pelo contrário, me excita, pois sei que a qualquer momento serei confrontada novamente entre o ter e o ser, e opto por este último. Todos nós deveríamos uma vez na vida desfazer de alguns bens materiais que temos - é saudável, importante e sobretudo desafiador.

Há dez meses passei pela mesma experiência em ter de desfazer de muita coisa. Em duas semanas dei um rumo aos móveis da casa - passei tudo para frente: estante, mesa, cama, colchão, bibelôs, quadros decorativos, roupas e muito mais. Guardei apenas as fotos e alguns livros, pois são as peças que julgo importantes para mim agora e no futuro.

Estou em Brighton há um mês. A cidade fica ao Sul da Inglaterra, cerca de uma hora de Londres. A minha estadia por aqui é rápida, 90 dias. O apartamento foi mobiliado ajustando o meu gosto e estilo a um orçamento baixíssimo. Como? Alternativa sustentável: produtos usados e de preferência que fossem deixados por alguém nas portas das residências. Por três semanas procurei nas calçadas o excedente das pessoas, o que em tese seria a minha necessidade.

Incorporei o mantra: a sua sobra é do que eu preciso. Funcionou. A minha obestinação encantou até o universo. À caça à sobra aconteceu não só para mim, uma outra pessoa que mudara para o mesmo prédio foi agraciada com uma mesa supimpa encontrada nas calçadas de Brighton por mim - ainda indiquei-lhe locais onde tinham três cadeiras e alguns quadros para decoração.

O impressionante nessa garimpagem de produtos jogados fora é o cuidado do doador em oferecer a quem interessar possa, que o que está ali não é um lixo e sim algo que não lhe serve mais, mas que poderá ser usado por alguém. Geralmente o “presente” a céu aberto até acompanha um recado simpático, “por favor, fique à vontade para me levar para casa”, “sou quase novo mas fui substituído”.

É animador presenciar a qualidade de vida oportunizada a um cidadão de país desenvolvido. Não é louvável lugares onde o indivíduo pode se desfazer de produtos de qualidade e ainda deixar um recado cortês? Penso que esse patamar só foi alcançado porque as políticas públicas desses países são efetivas e sérias. Nação onde o contribuinte é tratado com respeito e onde ele é o “doutor”, o panorama é outro, fato.

Acredito que no Brasil o percurso de chegar a tais níveis é longo - o de desfazer de produtos e paralelamente, humildade em aceitá-los sem a preocupação com o rótulo “made in pobre”. Para nós que culturalmente, mais importante do que ter é parecer que tem, há uma caminhada longíqua a percorrer à quebra do estereótipo “ não sou pobre e não preciso do seu lixo”.

Em sociedades desenvolvidas aceitar coisas do outro é além de politicamente correto, super moderno. Em voga o termo “shabby chic”, que consiste em transformar peças do lixo ou da “vovó” em algo único. Por aqui até a classe média se rende à sobra alheia. As famosas “charities” vendem de tudo, e todos os produtos foram doados por populares e até donos de lojas. Nesses estabelecimentos aceitam-se cartões de crédito, empregam pessoas, são abarrotadas de clientes e ainda funcionam de segunda a segunda com a diferença de que o consumidor não é caracterizado de pobre ou rico.

Num país como o Brasil, onde o salário da maioria é vergonhoso, onde muito de nossos compatriotas alimentam-se das sobras, literalmente, do lixo de muito de nós, onde o trabalhador sente-se dificuldades financeiras em suprir as necessidades básicas no final do mês, é no mínimo inconcebível a arrogância de muitos em achar que não precisamos do “resto” alheio , ou que, o fato em aceitar-se algo de uma pessoa é sinômino de pobreza. Isso é maturidade, é responsabilidade e consciência social. Por favor, não justifiquemos que com a ascensão dos tais “outlets” o Brasil está numa abertura para aceitar produtos melhorados, longe disso. Na minha opinião, os outlets são apenas o consolo da frustração de quem tem que ter mas as condições financeiras não deixa tê-lo.

Pecamos muito pela nossa petulância em acharmos que somos melhores que o próximo, mas pecamos principalmente pelo nosso excesso em tudo e sobremaneira pela falta de humildade em aceitar o que o outro tem a nos oferecer, que geralmente é sempre de bom grado e coração aberto. Sejemos mais conscientes antes de comprarmos algo ou de jogar algo fora. A sempre alguém próximo de nós que precisa do que temos, e alguém que pode nos oferecer o que precisamos.
 

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