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Cleber Toledo
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Cleber Toledo é jornalista desde 1992, com passagens por jornais em Paraná, São Paulo e Tocantins. Fundador do Portal CT.

Maluf ainda existe

CLEBER TOLEDO, DA REDAÇÃO 17 de Jul de 2017 - 08h57, atualizado às 09h02
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Foto: Luis Macedo/Câmara Notíicias
Deputado Paulo Maluf: depois de fazer e acontecer, ainda consegue ocupar espaço público

Não pude acreditar quando vi Paulo Maluf deputado federal e falando na TV sobre a inacreditável moralidade e hombridade do presidente Michel Temer. Claro que sabia que ele era parlamentar, mas precisava conferir com esses olhos que a terra um dia vai petiscar. O que mais me chocou não foi testemunho desacreditado dele sobre a idoneidade hoje duvidosa do presidente da República. Meu queixo caiu só pelo fato de ver Maluf, depois de tantos anos fazendo e acontecendo, ainda ocupando um espaço público. Chocante!

O ex-prefeito de São Paulo e ex-governador paulista nunca teve uma imagem muito boa entre os Toledo. Quer dizer, com exceção do tio Gilberto, malufista empedernido. No dia 15 de janeiro de 1985, o Brasil teve talvez a eleição mais importante da história recente, ainda que os brasileiros tenham sido excluídos dela. O primeiro presidente civil seria escolhido entre Tancredo Neves e Paulo Maluf pela via indireta, depois de a Emenda Dante de Oliveira, para que todos pudessem votar, ter sido rejeitada.

Estávamos eufóricos, torcendo para que Tancredo fosse escolhido pelo Colégio Eleitoral, o que acabou se confirmando. Nossa alma se sentiu lavada como daqueles brasileiros sob a enorme bandeira estendida na Esplanada dos Ministérios. Estávamos na casa do tio Gilberto, em Ilha Solteira (SP), na maior festa, com volta da democracia pelas mãos do ex-governador mineiro. O dono da casa, que trabalhava no momento da eleição indireta, chegou e uma das emocionadas tias resolveu tirar uma casquinha do derrotado. “Ih, Gilberto, viu que seu candidato perdeu?”, a atrevida disparou, irônica, contra o irmão. “Não vi porque não sou um desocupado como vocês e estava trabalhando”, devolveu meu tio, assim, na lata, passando em pisadas duras pela sala.

Não foram poucas as altercações entre tio Gilberto e meu pai, seu Heitor, ou qualquer outro que ousasse afrontar essa admiração para nós inexplicável pelo homem que “rouba mas faz”.

Funcionário da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), meu pai, avesso a Maluf, contava que certa vez o chefe convocou vários homens para participar de um almoço no restaurante da empresa com o então governador paulista. Arredio a qualquer tipo de mise en scene para agradar político, ele se recusou peremptoriamente a se envolver no beija-mão. Seu Heitor, sempre teimoso, resistiu a toda insistência e pressão vindas do andar de cima e almoçou na sua rotina de sempre.

Os demais, postos no restaurante da Cesp, com cardápio devidamente reforçado e requintado para a ocasião, esperaram o ilustre visitante. Passou muito tempo, todos famintos e nada de Maluf com sua fala anasalada característica. Entre risos, meu pai lembrava que já quase 15 horas veio o comunicado de que o “dr. Paulo”, como se referiam a ele para lhe emprestar todo ar de autoridade, se atrasou nos compromissos, fartou-se elegantemente no hotel e embarcou para São Paulo, deixando os operários da usina hidrelétrica roxos de fome.

Já contei em outra crônica que Maluf foi a causa da primeira das incontáveis confusões que criei no jornalismo. Em 1982, aos 12 anos, integrei a redação do jornal da Escola Estadual de Primeiro Grau José Amador, em Teodoro Sampaio, no interior paulista. A ditadura, mesmo em estado terminal, ainda imprimia medo e muita coisa era discretamente vetada. Recebi a pauta para entrevistar o diretor com a ressaltada instrução de não peregrinar na seara da política. Contudo, ao final do roteiro não me contive e tasquei:

— O senhor não acha que o governador Paulo Maluf deveria investir mais em educação?

O diretor, amarelo, desconversou para manter os ares de aparência democrática. Depois foi para cima da coitada da professora, que, lógico, deu-me os merecidos puxões de orelhas.

Por aquela época tive um encontro com Maluf. Nada privado e nem espontâneo. O governador de São Paulo foi à nossa pacata Teodoro Sampaio fazer não sei o quê e os alunos, todos conduzidos ao Clubão, deveriam recepcioná-lo como grande líder, numa bajulação arranjada pelos dirigentes de ensino.

Ainda vejo seus óculos enormes, ouço a voz nasalar cumprimentando as crianças e lembro-me de minha dúvida cruel. Devidamente doutrinado por seu Heitor, eu já havia me convertido num anti-malufista enfatuado. Enquanto o governador se aproximava, cumprimentando aluno por aluno, eu deliberava com meu orgulho se deveria aceitar ou não o aperto de mão daquele ser tão execrado no lar dos Toledo — com exceção do tio Gilberto, bom que se registre. Maluf avançava em minha direção, criança a criança, e ainda pensava com meus botões. Estendia ou não a mão? Por fim, conclui que era uma bobagem e, além do mais, ali estava um homem que aparecia na TV preto e branca da nossa sala, o que não era comum de se ver naquela época. Não poderia perder esta oportunidade. Meio sem graça, apertei sua mão grande, ouvindo sua o mesmo som que vez ou outra estava na Jornal Nacional.

No final dos ano 1990, Maluf perdeu outra eleição para Presidência, desta vez para o “caçador de marajás” Fernando Collor. Mas foi povo, na primeira eleição direta, em 1989, que lhe disse o “não”. Elegeu-se em seguida prefeito de São Paulo e se fortaleceu a ponto de fazer como sucessor seu secretário da Fazenda, um desconhecido Celso Pitta — lembra do "se o Pitta não for um bom prefeito nunca mais vote em mim”?.

Depois desapareceu do cenário político. Quando veio a público novamente, já encrencado com a Justiça, estava preso com o filho Flávio.

Pensei que nunca mais ouviria falar do político Maluf, mas só do presidiário, e eis que dou com ele na TV semana passada, com uma pregação moralista, falando em idoneidade, probidade, hombridade, palavras que deveriam estar interditadas em sua linguagem.

Claro que tio Gilberto não concordaria comigo, já seu Heitor assinaria embaixo e ainda emendaria mais uns adjetivos nada elogiosos.

CT, Palmas, 17 de abril de 2017.

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